Plano alimentar flexível: o que funciona na vida real

Mesa de jantar em família com uma travessa de empadão e um prato montado com empadão e salada, exemplo de plano alimentar flexível

São sete e meia de uma terça-feira. Saiu do trabalho mais tarde do que contava, apanhou trânsito à chuva e ainda teve de passar no supermercado por causa do leite. Quando chega a casa, no frigorífico está o papel com o jantar de hoje: dourada assada com brócolos e batata-doce. Olha para o peixe cru e para os quarenta e cinco minutos de forno que faltam. Pega no telemóvel, pede o jantar numa aplicação e passa o resto da noite com a ideia de que estragou a semana logo à terça.

Vejo esta cena quase todas as semanas em consulta. A conclusão que a maioria tira é que lhe falta força de vontade. Quase nunca tem que ver com isso. O que falhou foi um plano desenhado para uma semana calma, aplicado a uma semana que não foi calma. Ao longo dos anos a acompanhar mais de 3000 mulheres com o Método Emagrece com Liberdade, aprendi que o que separa quem mantém resultados de quem recomeça de três em três meses é a capacidade do plano de aguentar dias assim. Neste artigo mostro-lhe como construir um plano alimentar flexível que resiste às terças-feiras difíceis, aos jantares de aniversário, às férias de agosto e às semanas em que um filho adoece de madrugada.

A semana perfeita que nunca chega

Durante anos ensinaram-lhe que emagrecer começa no domingo à tarde. Cozinhar tudo de uma vez, encher o frigorífico de caixas iguais, cumprir a lista até ao domingo seguinte. Na primeira semana costuma correr bem. Tem tempo, tem motivação e tem a despensa cheia. A balança desce e confirma que o método resulta.

A dificuldade aparece na segunda ou terceira semana. Surge uma reunião que se arrasta até às sete, uma criança com febre às três da manhã, um almoço de família que ocupa a tarde inteira de domingo, o aniversário de uma amiga à quinta-feira. Quando a estrutura só funciona com previsibilidade total, basta um imprevisto para a deitar abaixo.

Depois entra o raciocínio do tudo ou nada. Comeu uma fatia de bolo no escritório ao lanche, portanto o dia já está estragado e o jantar deixa de contar. Repare no que aconteceu ali: uma fatia de bolo acabou por arrastar consigo duas refeições inteiras. A rigidez custou-lhe mais do que o bolo alguma vez custaria.

Um plano alimentar flexível parte de outro princípio. Assume desde o início que a sua semana vai ter dias maus e prepara respostas para esses dias, em vez de fingir que eles não acontecem.

A terça-feira em que nada corre como devia

Voltando ao jantar da terça-feira. Num plano rígido existem duas saídas: assar o peixe a contragosto ou encomendar comida e sentir-se mal. Há uma terceira, e é essa que trabalho em consulta.

Passa por ter em casa refeições que demoram o mesmo tempo que encomendar o jantar. Uma lata de atum ao natural ou de sardinhas em azeite, a massa que sobrou de ontem, um punhado de espinafres já lavados. Cinco minutos, prato quente, refeição completa. Os ovos resolvem outra boa parte destas noites: uma omelete com queijo e tomate cereja fica pronta antes de a aplicação confirmar o pedido.

Três jantares de emergência que vale a pena ter sempre em casa

  • Atum ou sardinhas com massa e verde. Massa ou arroz cozido do dia anterior, uma lata escorrida, espinafres ou rúcula lavados, azeite e limão.
  • Omelete de dois ovos. Com queijo e tomate cereja, pão escuro ao lado e um pouco de salada.
  • Grão de bico de frasco. Escorrido, com atum, tomate, cebola roxa, azeite e orégãos. Fica pronto sem ligar o fogão.

O que faz diferença aqui é a decisão estar tomada antes, e não às oito da noite com fome. Quando fizer as compras, escolha três ou quatro alternativas rápidas e deixe-as sempre na despensa. Latas, ovos, grão cozido, legumes congelados, arroz pronto. No dia em que o plano cai, já sabe o que faz sem ter de pensar com a cabeça cansada.

Canto de sala ao fim da noite com uma chávena de chá e dois quadrados de chocolate preto numa taça de cerâmica
Decidir antes o que vai comer à noite muda o que acontece às nove.

Jantares fora e aniversários, sem prato à parte

A imagem da mulher a comer alface sem azeite enquanto a mesa parte o pão é comum e é dispensável. Muitas pacientes dizem-me que começaram a recusar convites para não terem de gerir a escolha no restaurante. O custo disso vai muito além da alimentação. Perde-se o jantar com as amigas para proteger uma regra.

Os aniversários vão continuar a acontecer. Os jantares de sábado também. Um plano que os trate como acidentes vai falhar umas cinquenta vezes por ano. Vale mais decidir com antecedência do que reagir à mesa.

Se sabe que vai a um restaurante italiano no sábado e lhe apetece massa com natas, ponha essa refeição no plano da semana. Chega ao restaurante com a decisão tomada: escolhe o prato de que gosta, e passa à frente do pão com manteiga que costuma comer só por estar ali à espera. Se quiser sobremesa, partilhe. Se quiser vinho, tenha um copo de água ao lado. O serão continua igual. O que desaparece é a negociação constante que a deixa exausta antes de o prato sequer chegar.

Escrevi com mais detalhe sobre como escolher fora de casa neste artigo: comer fora sem culpa no verão.

Cozinhar uma vez para a casa toda

Há um detalhe prático que faz cair mais planos do que qualquer outro: exigirem que cozinhe duas vezes. As mulheres que acompanho tratam quase sempre das refeições da casa inteira. Se o papel diz pescada cozida e a família quer empadão, ao terceiro dia é o cansaço que decide.

Um plano alimentar flexível serve a mesa toda. A base é a mesma para todos. O que muda é a forma como monta o seu prato e duas ou três decisões durante o refogado.

Faça o empadão. Use carne picada de vaca com menos gordura, ponha mais cenoura e alho-francês na base para render, e deixe a camada de puré mais fina. Na hora de servir, no seu prato entra uma porção de empadão e metade do prato com salada ou legumes salteados. Come o mesmo que os outros, na quantidade que faz sentido para si, e ninguém à mesa dá por nada.

A mesma lógica aplica-se ao arroz de frango, à lasanha ou ao bacalhau com natas. A refeição é uma só. A montagem do prato é sua.

Férias sem regressar a setembro em pânico

As férias trazem duas coisas ao mesmo tempo: o descanso que lhe faz falta e o receio de recuperar o que perdeu. O pensamento habitual é que em férias tudo pára, incluindo o cuidado com a alimentação. Depois setembro chega e traz consigo um mês de castigo para compensar.

Em férias precisa de poucas âncoras. Três chegam.

  • Pequeno-almoço com proteína a sério. No buffet do hotel, ovos mexidos ou iogurte natural com fruta, em vez de começar o dia só com pão e sumo. A diferença sente-se por volta das onze da manhã.
  • Almoço com base no que a região tem de bom. Peixe grelhado, carnes simples, e sempre legumes ou salada no prato.
  • Jantar livre. É a refeição para o restaurante que lhe apeteceu, para o gelado no passeio à beira-mar, para a sobremesa da terra.

Duas refeições com estrutura e uma refeição livre por dia mantêm a direção e deixam-lhe as férias inteiras. Beba água ao longo do dia, sobretudo com calor, e ande a pé sempre que der. Chega para atravessar agosto sem o regresso pesado que já conhece.

As nove da noite

As nove da noite são a hora mais difícil do dia para muita gente. A casa está finalmente calma. As crianças dormiram, as luzes estão baixas, o telemóvel parou de apitar. Senta-se no sofá e o corpo relaxa pela primeira vez desde as sete da manhã. E logo a seguir vem a vontade de abrir o armário à procura de qualquer coisa doce.

A comida acalma depressa, e é por isso que funciona tão bem como resposta ao stress do dia. O conselho habitual é ignorar, beber um chá e fechar a porta da cozinha. Costuma acabar numa ida à despensa por volta das dez e meia, a comer bolachas de pé à bancada.

Com as minhas pacientes, faço isto por outra ordem. Primeiro olho para o jantar. Muitas noites de assalto ao armário começam num jantar que teve pouco arroz, pouca massa ou pouca batata. Se jantou uma salada com frango às sete e meia, às nove tem fome a sério, e nenhuma força de vontade resolve fome.

Depois, se o jantar estava bem servido e a vontade se mantém, então já estamos a falar de outra coisa. Aí escolha o que vai comer, sirva numa taça, sente-se e coma devagar. Dois quadrados de chocolate preto com um chá, um iogurte com canela, três tâmaras. O que separa isto do pacote de bolachas na bancada é ter decidido antes de chegar ao armário.

Se este padrão se repete quase todas as noites e vem sempre agarrado a um dia difícil, vale a pena olhar para a parte emocional com atenção. Deixo-lhe duas leituras: dicas para lidar com a compulsão alimentar e o peso das emoções na perda de peso. Quando a fome tem origem emocional, o trabalho combinado de nutrição e psicologia no programa Corpo e Mente costuma dar melhores resultados do que ajustar só o prato.

O que passa a medir

Um plano que aguenta a vida real muda também a forma como avalia o seu progresso. Durante anos mediu o esforço pelo número que a balança mostrava à sexta-feira de manhã. O peso oscila por vários motivos ao longo de um mês, desde a retenção de líquidos depois de uma refeição mais salgada até às variações normais do seu ciclo. A balança é um sinal entre vários e, sozinha, diz pouco.

Repare noutras coisas. Nas calças que já fecha sem prender a respiração. Na energia que tem às seis da tarde, quando antes só lhe apetecia sentar. Na semana em que falhou tudo o que tinha planeado e mesmo assim voltou ao normal no jantar seguinte, sem esperar pela segunda-feira. Na fatia de bolo que comeu no aniversário do seu filho sem passar a tarde a fazer contas de cabeça.

São estes sinais que dizem se está a construir alguma coisa que dura. A consistência que interessa mede-se em meses, e não numa semana impecável seguida de três semanas a recomeçar.

O que leva daqui

Um plano só funciona se aguentar o cansaço de terça-feira, o jantar de sábado, as férias de agosto e a semana em que tudo se atravessa. Para isso precisa de ter respostas de cinco minutos, de servir a mesa toda e de deixar espaço para as refeições que lhe dão prazer. Se depende de uma semana calma para se cumprir, vai continuar a cair sempre no mesmo sítio, e a culpa que vem a seguir não vai ajudar em nada.

Olhe para as regras alimentares que anda a tentar cumprir. Veja quais a ajudam mesmo e quais só a empurram para o ciclo de falhar e voltar a começar. Qual é a regra que mais lhe custa cumprir nesta fase da sua vida? É por essa que vale a pena começar.

Se quer um plano feito à medida da sua rotina, dos seus horários e de quem come consigo em casa, é exatamente isso que trabalho na consulta de nutrição. Se prefere dar o primeiro passo sozinha, o Kit START dá-lhe a estrutura inicial para organizar a semana sem cortes nem listas de alimentos a evitar.

Ana Sousa, nutricionistaAna SousaNutricionista · Cédula 2187N, Ordem dos NutricionistasConhecer o percurso da Ana →

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