Começar a emagrecer em setembro: o custo de adiar

Todos os anos, por esta altura, oiço as mesmas três frases. Agora já não vale a pena. Em setembro começo. Nas férias não quero pensar nisso. São ditas com leveza, quase a sorrir, e à primeira vista parecem inofensivas. O que fazem é alimentar um ciclo que se repete de ano para ano: adiar, desistir e recomeçar do princípio.

Se está em agosto e já marcou setembro na cabeça como a data de arranque, este artigo é para si. Vou mostrar-lhe o que custa mesmo esse adiamento, o que dá para manter durante estas semanas sem estragar as férias, e como funcionam na prática um churrasco, uma esplanada e um gelado dentro de um processo de emagrecimento. Porque começar a emagrecer em setembro raramente é a decisão que parece ser.

O que custa mesmo adiar para setembro

A conta que faz na cabeça é esta: são três ou quatro semanas, no máximo perco algum terreno, depois recupero. E se a coisa se medisse em quilos, teria razão, porque três semanas não desfazem meses de trabalho.

Só que,  ao pôr tudo em pausa, perde a rotina que já tinha construído: os horários das refeições, o lanche resolvido, a caminhada de fim de dia, o hábito de ter legumes lavados no frigorífico. Essas coisas levaram meses a assentar e desmontam-se em duas semanas. Em setembro não continua de onde estava, mas sim, volta a começar do zero, com a diferença de que agora começa também com a sensação de ter falhado, e essa parte pesa mais do que o peso na balança.

Há ainda uma segunda conta, menos evidente. Cada vez que adia, ensina-se a si própria que este assunto é para uma altura ideal que nunca chega. Depois de setembro vem o Natal. Depois do Natal vem janeiro, que arranca com força e cede em fevereiro. Depois vem a Páscoa e depois vem o verão outra vez. Ao fim de alguns anos, o que ficou não foram os quilos. Foi a certeza de que não consegue.

As três frases que mais ouvimos em Agosto

Agora já não vale a pena

Esta parte do princípio de que o objetivo era chegar ao verão magra, e como o verão já chegou, deixou de haver razão para continuar. Enquanto o emagrecimento tiver uma data de entrega, vai ter sempre um momento em que deixa de fazer sentido. Foi sobre isso que escrevi no artigo sobre emagrecer antes do verão sem dietas radicais.

Vale sempre a pena manter as refeições a horas e continuar a comer bem, mesmo sem qualquer objetivo à vista. Não pelo número de agosto, mas pela quantidade de trabalho que não vai ter de repetir em setembro.

Em setembro começo

Setembro tem uma coisa boa, que é o regresso dos horários fixos. E tem uma má, que é chegar com tudo ao mesmo tempo: escola, trabalho a acelerar, agenda cheia. Quem chega a setembro sem nenhuma rotina a funcionar vai tentar montar tudo de uma vez na pior semana do ano para o fazer.

Chegar a setembro com duas ou três coisas já de pé, mesmo que pequenas, muda esse arranque por inteiro.

Nas férias não quero pensar nisso

Nisto tem razão, e não lhe vou pedir para passar as férias a contar o que come. Férias servem para descansar, e comer bem não obriga a pensar no assunto o dia todo. Obriga a ter duas ou três coisas automáticas que continuam a acontecer sem lhe pedirem atenção nenhuma.

A sua versão mínima para agosto

Em vez de escolher entre o plano completo e nada, escolha uma versão mínima: o menor conjunto de hábitos que consegue manter mesmo na semana em que está fora de casa e sem cozinha.

Escolha três, não mais. Estas são as que funcionam melhor com as mulheres que acompanho:

  • Pequeno-almoço com proteína, todos os dias, seja onde for. Iogurte, ovos, queijo. Não muda de sítio para sítio.
  • Água à mão desde a manhã. No calor, muito do que parece fome do meio da tarde é sede que ficou por resolver.
  • Uma caminhada por dia, nem que sejam vinte minutos ao fim da tarde ou antes do pequeno-almoço, quando ainda está fresco.

Três hábitos que se cumprem valem mais do que dez que se abandonam ao terceiro dia. E quando setembro chegar, chega com estes três já a funcionar, o que faz do regresso uma continuação e não um recomeço.

Repare no que esta lista deixa de fora. Não tem pesagens, não tem contagens, não tem refeições marcadas ao minuto. Não tem nada que dependa de ter cozinha própria ou de haver tempo para preparar seja o que for. Foi escolhida assim de propósito: um hábito que precisa de condições especiais para acontecer é um hábito que desaparece na primeira semana fora de casa.

Se quiser acrescentar uma quarta coisa, acrescente esta: um lanche a meio da tarde. Em agosto os jantares costumam ser mais tarde do que no resto do ano, muitas vezes às nove ou às dez da noite, e chegar lá sem ter comido nada desde a uma é a forma mais rápida de comer o dobro do que precisava. Uma peça de fruta com um punhado de amêndoas resolve.

Veja o passo a passo em vídeo, no Instagram da Ana Sousa.

Churrasco, esplanada e gelado

Aqui está o que dá mais dúvidas, por isso vou ser concreta.

O churrasco de domingo

O churrasco tem carne, que é proteína, e costuma ter uma salada em cima da mesa que ninguém toca. Faça o prato uma vez, com salada a ocupar bastante espaço, a carne ou o peixe, e o pão ou a batata que lhe apetecer. Coma sentada e sem repetir por inércia. O problema do churrasco raramente é o prato. É a hora e meia de aperitivos e pão antes de o almoço começar, com um copo na mão. Coma qualquer coisa antes de sair de casa e chega lá sem essa fome toda.

Os finais de tarde na esplanada

Se vai beber, escolha o que gosta mesmo e beba devagar, com um copo de água ao lado. Água com gás, limão e gelo é uma bebida decente para quem quer estar à mesa sem estar a beber. Tremoços e azeitonas são melhor companhia do que uma taça de batatas fritas que se come sem dar por isso.

Mesa de esplanada de verão com copo de água com gás e limão e uma taça de tremoços

O gelado depois do jantar

Um gelado num dia de agosto não trava emagrecimento nenhum. O que trava é comê-lo com culpa, decidir que o dia já está estragado e comer mais quatro coisas a seguir. Se lhe apetece um gelado, coma o gelado. Sente-se, coma devagar, saboreie, e depois o dia continua exatamente como estava.

Os jantares fora que se repetem

Em agosto os jantares fora deixam de ser uma exceção e passam a ser três ou quatro por semana. Aqui a regra que uso com as minhas pacientes é simples: escolha primeiro o prato principal e escolha-o com proteína. Peixe grelhado, bife, frango, um arroz de marisco. Depois decida se quer entrada ou sobremesa, uma coisa ou outra, e não as duas por hábito. Deixei mais detalhe no artigo sobre comer fora sem culpa.

O couvert é onde a maior parte das refeições se desequilibra antes de começar. Pão, manteiga, queijo e paté enquanto espera vinte minutos pela comida somam uma refeição inteira que ninguém contabiliza porque foi comida em pé de conversa. Se tiver fome à chegada, peça uma sopa ou uma salada para partilhar e deixe o couvert onde está.

E quando a rotina desaparece por completo

Há semanas em que não há horários, não há cozinha e não há nada previsível. Casa de família, viagem, hotel. Nessas semanas o objetivo passa a ser um só: chegar ao fim sem ter desmontado tudo.

Duas coisas ajudam. A primeira é não fazer refeições de compensação, ou seja, não saltar o almoço porque o jantar foi grande. Saltar refeições em dias desregulados garante que a noite corre pior. A segunda é olhar para o prato e procurar duas coisas: há aqui proteína e há aqui legumes ou fruta? Se sim, está bem. Não precisa de mais nenhuma regra durante essas semanas.

E se houver dois ou três dias em que nada disto acontece, também está bem. Volta ao normal na refeição seguinte, e não na segunda-feira seguinte. Escrevi sobre exatamente isso em comer a mais e recomeçar.

O que fazer na última semana de agosto

Se leu até aqui já em finais de agosto, esta é a parte que lhe interessa mais. A última semana antes do regresso decide bastante do que vai acontecer em setembro, e há três coisas que valem o tempo que levam.

A primeira é voltar aos horários antes de voltar ao trabalho. Se durante três semanas jantou às dez da noite, comece a puxar o jantar para trás uns dias antes. Chegar ao primeiro dia de trabalho já a dormir e a comer às horas normais poupa-lhe uma semana de sensação de descompasso.

A segunda é fazer uma compra a pensar na primeira semana de setembro, e não na despensa em geral. Leve o que resolve os jantares rápidos: ovos, atum, leguminosas de pacote, legumes congelados, iogurte grego, fruta. Uma primeira semana de setembro com o frigorífico vazio termina sempre da mesma maneira.

A terceira é escolher já o que vai fazer na semana seguinte, e escolher pouco. Duas caminhadas e o lanche resolvido chegam para arrancar. Setembro tem tempo de sobra para acrescentar o resto, e um arranque modesto que se cumpre vale mais do que um plano inteiro que se abandona ao dia dez. É este princípio que está por trás de um plano alimentar flexível.

O que levar daqui

Adiar para setembro custa menos em quilos do que em rotina. Perde os horários, o lanche resolvido e a caminhada do fim do dia, que foram as coisas que mais trabalho deram a construir, e em setembro tem de montar tudo outra vez numa das semanas mais cheias do ano.

A alternativa não passa por estragar as férias. Passa por escolher três hábitos pequenos que continuam a acontecer em agosto, e por perceber que o churrasco, a esplanada e o gelado cabem lá dentro sem estragarem nada. Pergunte-se o que quer estar a fazer no dia 1 de setembro: a começar outra vez, ou a continuar.

Se todos os anos chega a esta altura com as mesmas frases e em janeiro está no mesmo sítio, o que falta provavelmente não é força de vontade. É um plano feito para a sua vida, incluindo os meses em que ela sai da rotina. Marque a sua consulta de nutrição e definimos a versão que consegue manter durante o ano inteiro.

Ana Sousa, nutricionistaAna SousaNutricionista · Cédula 2187N, Ordem dos NutricionistasConhecer o percurso da Ana →

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